Uma coisa importante a pensar quando falamos de uma vida plena e feliz é a questão das comparações. As comparações podem ampliar ou deprimir a sensação de sermos ou não felizes, e aqui, a inveja mais uma vez tem papel fundamental.
Colocar em perspectiva
Colocar as coisas em sua devida perspectiva, nos lembrarmos que nossa vida afinal não é tão ruim nos ajuda a distanciar de sentimentos pouco construtivos e de inferioridade. Este processo pode ser muito saudável e envolve comparações intrapsíquicas (quando comparamos nosso presente com um momento menos feliz do passado) e interpessoais. Podemos por exemplo, sermos gratos por nosso carro ter quebrado hoje, quando temos recursos para consertá-lo (diferente de 10 anos atrás quando não poderíamos assumir essa despesa). Ou podemos sentirmo-nos gratos por termos alguém para segurar nossa mão numa cirurgia importante (ao contrário daquele nosso colega de trabalho). Em outras palavras, quando estamos “pra baixo”, ao lembrarmos de situações complicadas de nosso passado ou de outras pessoas, conseguimos nos posicionar de forma mais positiva no aqui e agora. Ao lembrarmos em como as coisas poderiam ser em comparação com algo mais grave é uma maneira universal e bastante construtiva para melhorar o moral e iluminar o espírito.
Um dos 7 pecados
É claro que sempre podemos comparar para cima ou para baixo. As coisas não são sempre melhores que o passado. Nem sempre ganhamos mais, temos uma saúde melhor, somos tão jovens, ou melhores ou espertos. O importante, quando procuramos a felicidade, é lembrarmos que a maioria das pessoas que se dizem felizes, comparam-se para baixo. Não importa a situação, conseguem perceber pessoas em situações piores, o que os faz sentirem-se afortunados. Essas pessoas aprenderam a apreciar as coisas que tem em vez de preocuparem-se com o que os outros têm. Estudos comprovam que os infelizes não só comparam-se com quem esta abaixo, mas principalmente com aqueles que estão acima. Esta comparação é a que valorizam. Sentindo-se profundamente injustiçados, passam seus dias procurando confirmações de que a vida não ofereceu grandes oportunidades. Quando principalmente comparam com quem esta acima, focam no fato de que os outros têm uma vida mais privilegiada e cheia de oportunidades. Pessoas fixadas na questão de que foi oferecido a elas menos que aos outros percebem a vitoria alheia como perda pessoal. Não importa o que persigam (com sucesso ou não) – dinheiro, amor ou poder – sempre são capazes de encontrar alguém melhor, e percebem essa pessoa como usurpadora do que seria seu por direito.
Todos nós nos sentimos em desvantagem algumas vezes, particularmente se nos comparamos com pessoas um pouco mais acima na escada do status, aparência ou poder. O desafio esta em trabalharmos nossas emoções. Visando nossa saúde mental é importante não ficarmos presos demais na negatividade, obsessivos com a questão de sentirmo-nos injustiçados. Porque se nos mantivermos assim, a inveja erguerá sua horrível cabeça e tentará nos devorar.
Comparações interpessoais e inveja fazem parte de um só continuum. A primeira avança gradualmente para a outra, trazendo o que há de pior em nós. Sabemos que algumas pessoas se divertem com a miséria de outras. Essas mesmas pessoas adotam a comparação para cima, o que dispara a inveja e a atitude hostil para com o outro. Mas devemos atentar que essa reação não é só dirigida ao outro. Pessoas invejosas têm sérios problemas com sua autoestima. São mais infelizes consigo mesmas do que com as pessoas que ridicularizam. São mestres nos processos de projeção e cisão, e têm grande dificuldade em lidar com partes inaceitáveis de si mesmos.
Duvido, como todos os estudiosos, que exista alguém que não tenha sentido inveja. Como dizem, a inveja é um sentimento universal e gera uma gama de sentimentos dolorosos: frustração, raiva, autopiedade, ganância, despeito e vingatividade. Enquanto atuar contra este sentimento traz um alívio temporário, quaisquer desses sentimentos podem causar angústia. Ninguém expõe ou verbaliza esses sentimentos, a inveja não é para consumo público. Preferimos escondê-la ou travesti-la. Sabemos que ela é um dos 7 pecados. Temos ampla literatura sobre o assunto e inúmeros ditados.
Algumas vezes a inveja é disfarçada (com sucesso) pela indignação moral. Quando as pessoas tem uma obsessão com atitudes desprezíveis dos outros, normalmente estão sendo “tentadas” pelas mesmas atitudes, dizem os estudiosos. Essas pessoas direcionam sua ira para aquilo que mais temem em si mesmas. Muitas vezes essa indignação é dirigida à sexualidade. A homofobia, indignação dirigida aos homossexuais, é uma forma de lidar com dúvidas sobre a própria identidade sexual. Sabemos de muitos pastores, padres, políticos e astros que pregam sobre o pecado, o vício, a avareza, a ganância e são pegos com prostitutas, crianças, álcool/drogas, desvio de dinheiro, etc. A indignação moral muitas vezes é a inveja com uma auréola.
O alemão tem uma palavra muito interessante: schadenfreude – o prazer com a miséria dos outros. Mas se uma pessoa fundamenta sua felicidade no prazer na miséria alheia, o que isso diz da qualidade de vida dessa pessoa? Apesar de a miséria alheia poder trazer algum prazer (ou alívio por não ser você), a verdadeira felicidade não pode coexistir com a inveja, a maldade ou a vingança.
Quando a inveja aprisiona alguém, limita o potencial humano, endurece a capacidade lúdica, gera separações e leva à infelicidade.
Eu hoje faço o exercício contínuo de tentar colocar as coisas em sua devida perspectiva...
Bom dia, Cecile!
ResponderExcluirGostei muito do fromato do teu blog e da tua amneira de se expressar...este texto me fez refletir, adorei!
Forte abraço,
Cris Bresser